sábado, 30 de abril de 2011

REBIO de Pedra Talhada e Sua Nova Sede

Por Claudia Topan*


“As árvores pintadas com flores vermelhas avançam sobre o agreste. Mas, de repente uma estranha combinação aparece no caminho de encontro à cidade do mestre Graça. Entre as velhas olarias e os casebres de pau a pique plantados como a palma e o cacto na terra vermelha, ao fundo da Serra da Pedra Talhada, encontramos as primeiras antenas parabólicas nas casinhas pintadas de cores alegres.”

Graciliano Ramos

O renomado escritor alagoano Graciliano Ramos, de Quebrangulo, em uma de suas crônicas, revive o caminho para Palmeira dos Índios, cidade na qual chegou para morar aos dezoito anos e se consagrou ao ofício de captador dos sons, cores e cheiros da natureza do sertão nordestino. Com uma visão particular da natureza, oportuniza os leitores o encontro com essa natureza rústica do sertão, por ele pormenorizada.

Na crônica ele menciona uma serra, a Serra da Pedra Talhada. Ponto importante na região, que recebeu esse nome por causa das fissuras que o tempo, o vento e a chuva esculpiram na rocha. Hoje, essa área é conhecida por fazer parte da Reserva Biológica de Pedra Talhada, antes mesmo tinha sido um Parque Estadual.

A criação da Reserva Biológica (REBIO) Federal de Pedra Talhada foi decretada pelo então Presidente da República José Sarney, em treze de dezembro de 1989. Com uma área total de 4.469 ha (quatro mil, quatrocentos e sessenta e nove hectares) ela abrange os Municípios de Quebrangulo, em Alagoas, e Lagoa do Ouro, em Pernambuco. A criação da REBIO se deu com o objetivo de proteger amostras de dois ecossistemas muito significativos, devido a sua grande diversidade biológica; a Mata Atlântica e a Caatinga.

A Reserva é situada numa zona de transição destes biomas, com presença da Floresta Perenifólia Higrófila Costeira (Floresta Atlântica Úmida), Floresta Xerófila Caducifólia ou sub-Caducifólia e amostras de vegetação Xerófila Espinhosa e Caducifólia (Mata Branca). Segundo o orquidófilo Fernando Wuetterpfenning, é nesse santuário que podemos encontrar a rainha das orquídeas, a Cattleya labiata. Sendo essa flor encontrada em florestas de altitude, e muito bem adaptada as árvores centenárias existentes na Reserva.

Pode-se citar a parte faunística também encontrada em abundância; com representantes como o cervo brasileiro, o guandú, o coati, o tamanduá, a paca e o tatu. Existem ainda, entre os mamíferos, cinco espécies de felinos, lontras, raposas, alguns primatas e um grande número de roedores. Não esquecendo uma grande quantidade de répteis, que se adaptaram muito bem nas áreas de esconderijo e abrigos como cavernas e rochedos, próprios da geografia do local.

A Reserva Biológica de Pedra Talhada foi uma das unidades de conservação federais estudada em 2009, pelo trabalho de título “Unidades de Conservação Federais e Estaduais do Estado de Pernambuco: situação legal, infra estrutura e plano de manejo”. Com base nas respostas do questionário aplicado ao então gestor chefe da unidade, pode-se ter o real diagnóstico dessa reserva, com suas dificuldades e superações.

Para que uma Unidade de Conservação (UC) de Proteção Integral tipo Reserva Biológica possa efetivamente cumprir o seu papel, é necessário que haja a desapropriação da área. Esse já é um dos principais problemas não só da REBIO Serra Talhada, mas da grande maioria das Unidades de Conservação no Brasil.

Segundo o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) o Plano de Manejo é o documento técnico mediante o qual se cumpre os objetivos gerais de uma unidade de conservação, se estabelece o seu zoneamento e as normas que devem presidir o uso da área e o manejo dos recursos naturais, inclusive a implantação das estruturas físicas necessárias à gestão da unidade. No trabalho citado anteriormente, foi constatado que a REBIO de Pedra Talhada, até 2009, não tinha Plano de Manejo, não estava com a situação fundiária regularizada, não tinha uma zona de amortecimento, tinha problemas com ocupação clandestina e contava com apenas três funcionários para atender toda a UC.

O observado no estudo em questão foi que esses problemas fazem parte da grande maioria das UCs federais e estaduais do Estado de Pernambuco. Esta situação faz com que estas unidades de conservação não cumpram com o seu papel socioambiental.

Outras pesquisas apontam que 40% da mata foi derrubada em 25 anos, principalmente, pelas famílias que ainda residem na Reserva. Além de que, desde a criação da REBIO sempre houve um interesse muito grande pela exuberância da fauna e flora da região, por parte de caçadores e madeireiros.

Segundo Leslie Tavares, chefe da fiscalização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) de Pernambuco: “A gente tem dois problemas graves, que é a falta de regularização fundiária e a falta de aparelhamento e recursos humanos da unidade, mas vamos dar continuidade às atividades que já vêm sendo executadas. Já foram fechadas doze madeireiras na região e isso diminuiu bastante a pressão econômica em cima da unidade. Essa área e outros fragmentos de mata em Pernambuco vão sofrer essa mesma ação, para que se diminua a pressão das empresas nessas áreas e manter periodicamente os fiscais em campo”.

A importância da REBIO de Pedra Talhada é evidente, não só por toda a beleza cênica do local, mas por objetivar a preservação integral da biota, recuperação dos ecossistemas alterados, com ações de manejo para recuperar e preservar a diversidade biológica e os processos ecológicos naturais. Não se esquecendo das diversas nascentes no local, as quais abastecem grande parte dos municípios vizinhos à Reserva.

As sociedades alagoana e pernambucana devem estar atentas, junto à gestão da Reserva, para as iniciativas de revitalização dessa importante UC, que representa para as atuais e futuras gerações uma continuidade do abastecimento de água e a integração do homem ao meio ambiente aonde vive.

No dia 27 de maio de 2011, Dia da Mata Atlântica, ocorrerá a inauguração da nova sede da REBIO de Pedra Talhada. A Organização Não-Governamental Associação Nordesta – Reflorestamento & Educação da Suiça, construiu uma sede do lado pernambucano da Reserva, aonde funcionará também a Escola Bosque como os seguintes objetivos: gerar competências que possibilitem a inclusão das discussões ambientais no ensino formal/não formal e no processo de desenvolvimento sustentável (ecodesenvolvimento); elevar a qualidade de vida da comunidade através de projetos que integrem a prática ambiental aos programas de educação ambiental; promover estudos e pesquisas que viabilizem a recuperação e proteção dos ecossistemas com ênfase para a Mata Atlântica e Agreste; desenvolver programas de capacitação de recursos humanos direcionados para formação e atualização de professores, pesquisadores e técnicos; e estabelecer intercâmbio de informações com entidades afins.

Ainda, é um sonho transformar todas as escolas dos municípios do entorno (Chã Preta, Quebrangulo, Correntes e Lagoa do Ouro) em escolas vivas com a participação de toda comunidade escolar, como já dizia o poeta “Sonho que se sonha só é sonho que se sonha só, mas sonho que se sonha junto é realidade”.

Vamos fazer parte desse sonho, através do esforço da sociedade civil, instituições acadêmicas, empresas públicas e privadas e do poder público em geral, para que a REBIO de Pedra Talhada seja uma UC efetiva e não se torne mais um “parque de papel”, como muitas UCs brasileiras.


Referências:

BRASIL. Lei no 9.985, de 18 de Julho de 2000. Regulamenta o Art. 225, § 1º, Incisos I, II, III e VII da Constituição Federal, institui o Sistema Nacional de Unidades de Conservação e dá outras providências. Disponível em: . Acesso em: 17 abr. 2011.

BRASIL. Decreto nº 98.524, de 13 de dezembro de 1989. Cria a reserva Biológica de Pedra Talhada. Disponível em: Acesso em: 17 abr. 2011.

CASTRO, Beatriz. Pedra Talhada e suas orquídeas únicas pedem socorro e preservação. PE360 graus. GLOBO NORDESTE. Disponível em: . Acesso em: 18 abr. 2011.

CLAUDEMIR, José. Reserva ecológica de Pedra Talhada sofre com o desmatamento. Disponível em: Acesso em: 17 abr. 2011.

VIARURAL. Reserva Biológica da Pedra Talhada. Disponível em:

TOPAN, C. S. O. Unidades de Conservação Federais e Estaduais do Estado de Pernambuco: situação legal, infraestrutura e plano de manejo. Recife, 2009. (Trabalho de Conclusão de Curso), Curso de Pós-Gradução em Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente, Universidade Estadual de Pernambuco – UPE – PE, 2009.

* Claudia Topan é bióloga com especialização em Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável pela Universidadde de Pernambuco

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