terça-feira, 31 de maio de 2011

De volta para casa

O Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Aquáticos – CMA/ICMBio realizou no mês de Abril, a translocação de dois peixes-bois marinhos da Ilha de Itamaracá, Pernambuco para o recinto de readaptação em Porto de Pedras, Alagoas.

O CMA é uma unidade especializada do ICMBio, com atuação em todo o território nacional. Trabalhando em prol dos mamíferos aquáticos e de seus habitats, o CMA coordena, executa e promove estudos, projetos e programas de pesquisa e conservação destes animais.

O peixe-boi marinho é considerado como vulnerável pela IUCN 2010, pois sua população é estimada em menos de dois mil e quinhentos indivíduos maduros e pode sofrer um declínio de mais de 20% nas próximas duas gerações, se medidas de conservação não forem tomadas.

Esses representantes da Ordem Sirenia habitam rios, estuários e águas oceânicas costeiras rasas, tropicais e subtropicais, constituem-se nos únicos mamíferos aquáticos estritamente herbívoros e ocupam uma importante posição na teia trófica da qual fazem parte, pois suas fezes fertilizam o ambiente e eles também exercem o controle das macroalgas.

Esta ordem é composta por quatro espécies de peixes-bois viventes divididos em duas famílias: Trichechidade e Dugonguidae. Pertencem à família Trichechidade, o peixe-boi marinho (Trichechus manatus), o peixe-boi Amazônico (Trichechus inunguis) e o peixe-boi Africano (Trichechus senegalensis). A família Dugonguidae apresenta o vivente Dugong dugong e a espécie extinta Hidrodamalis gigans.

Os peixes-bois marinhos são divididos em duas subespécies: Trichechus manatus latirostris, que ocorre na América do Norte e Trichechus manatus manatus, que ocorre na América Central e América do Sul.

Podendo chegar a medir mais de 4,5 metros de comprimento e pesar mais de 600 kg na idade adulta, esses animais de grande porte, baixa taxa metabólica, e super mansos, tem na atividade de alimentação sua principal ocupação, passando seis a oito horas diárias se alimentando.













Animal cativo no CMA. Fonte: Arquivo CMA/ICMBio


Alimentam-se principalmente de algas, capim-agulha, uma fanerógama marinha, e também de vegetação de mangue.

A caça intensiva constituiu historicamente umas das principais ameaças ao peixe-boi marinho no Brasil, vindo a reduzir drasticamente o número destes animais no país. Atualmente, outros fatores ameaçam a espécie, como colisões com embarcações, capturas acidentais ou intencionais em redes de pesca, destruição do hábitat e encalhe de filhotes órfãos.















Filhote encalhado. Fonte: Arquivo CMA/ICMBio


As fêmeas grávidas procuram as águas calmas dos estuários para parir seus filhotes. Os estuários funcionam como berçários onde ocorrem os nascimentos e os primeiros cuidados maternais. Devido à degradação destes habitas as fêmeas não tem acesso a estas áreas e acabam parindo em locais sujeitos à constante batimento de ondas, com consequente desgarre do filhote e encalhe nas praias da região.


Os filhotes encalhados são resgatados e levados ao CMA, onde passam por um processo de reabilitação. Durante este processo são amamentados com fórmulas artificiais de leite em pó deslactosado a base de soja e suplementos vitamínicos, além de receberem acompanhamento clínico em cativeiros objetivando a sua recuperação para uma futura reintrodução em ambiente natural.

Um dos objetivos do Projeto Peixe-Boi é incrementar, em longo prazo, o número de peixes-bois marinhos na Costa Nordeste do Brasil e restabelecer parte da distribuição histórica da espécie.
Com a interrupção do programa de reintrodução desde 2004 e o aumento do número de encalhes e de nascimentos em cativeiro de filhotes, o CRAS – Centro de Reabilitação de Animais Silvestres – do CMA conta atualmente com uma população de 23 peixes-boi marinhos cativos.

Nos últimos nove meses, porém, o CMA realizou quatro translocações para as bases avançadas do Centro, sendo três para Alagoas, e uma para a Paraíba.

Hitórico dos animais:

Telinha encalhou ainda filhote na Praia de Areia Branca, no Rio Grande do Norte, no dia 15 de Dezembro de 2007. O animal apresentou durante todo o tempo em que esteve cativo bom desenvolvimento físico, boa saúde e vinha sempre se alimentando satisfatoriamente da alimentação natural dos peixes-bois fornecida pelos tratadores do Centro. Ao completar quase quatro anos, os Técnicos do CMA avaliaram a situação de Telinha e a consideraram apta à viver na natureza, optando pela sua traslocação para o semi-cativeiro de adaptação ao ambiente natural, em Alagoas.

Tupã também encalhou ainda filhote, na Barra de Sucatinga, Município de Beberibe, Ceará, no dia 13 de Janeiro de 2005. Assim como Telinha, ele apresentou bom desenvolvimento físico, boa saúde e alimentação adequada durante todo o período em que esteve cativo no Centro, e desta forma, os Técnicos o consideraram apto para ser translocado.

A operação:

A meia noite do dia 16 de Abril começava uma operação delicada que tinha como objetivo levar Telinha e Tupã de Itamaracá em Pernambuco para Porto de Pedras em Alagoas, em segurança.

A operação começou com o manejo dos animais para o caminhão. Telinha e Tupã foram transportados em cima de colchões em uma piscina de fibra de vidro em um caminhão Munke.

O caminho até Alagoas é longo. A velocidade do caminhão deve ser bastante reduzida de forma a não oferecer perigo e nem provocar estresse aos animais. Durante todo o trajeto, veterinários, tratadores e estagiários monitoram a respiração, os batimentos cardíacos e a temperatura de Telinha e Tupã, se preocupando sempre em passar óleo mineral na pele dos animais para mantê-la úmida.















Translocação para Alagoas. Fonte: Arquivo CMA/ICMBio


Ao chegar a Porto de Pedras, os animais foram colocados no semi-cativeiro de adaptação. Eles permanecerão neste local, sobre o monitoramento dos técnicos e tratadores do CMA, até adaptarem-se ao novo ambiente e assim poderão ser soltos na natureza, onde continuarão a ser monitorados através de um sistema composto por rádios transmissores que são acoplados ao pedúnculo caudal do animal através de um cinto. Esses rádios transmissores podem ser do sistema convencional VHF ou do sistema por satélite UHF.











Animal sendo levado ao semi-cativeiro. Fonte: Arquivo CMA/ICMBio


O monitoramento dos animais reintroduzidos é fundamental para acompanhar a adaptação dos indivíduos ao ambiente, com o objetivo de avaliar o sucesso da reintrodução e fazer intervenções veterinárias, caso sejam necessárias.

Mais informações: http://www4.icmbio.gov.br/cma/

Um comentário:

  1. Clemente Coelho Junior1 de junho de 2011 08:13

    Que Yemanja e Nanã de Boroque proteja esse filho da terra!

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