segunda-feira, 23 de maio de 2011

Histórias do valor social e econômico da floresta em pé

23/5/2011 - 10h31

por Sérgio Abranches, do Ecopolítica

A discussão hoje no mundo todo é como aumentar a cobertura vegetal e a área florestada. Só no Brasil se quer votar mudanças no Código Florestal que facilitam o desmatamento e liberam desmatadores de recuperar matas ciliares e áreas de preservação permanente desmatadas.

Uma visão atrasada da agricultura, da floresta e do desenvolvimento no Século 21, está criando a falsa impressão de que mexer no Código Florestal, como está proposto, é necessário para a agropecuária nacional. Não é. Esta é uma demanda de uma fração dos produtores. O problema é que aqueles que não praticam o que essa fração pratica, ainda se deixa representar por ela, para seu próprio risco. O porta-voz dessa fração passou a ser o relator do projeto de mudança, o deputado Aldo Rebelo. Muito conveniente para as lideranças ruralistas, que não precisam aparecer e o abastecem nos bastidores.

Na luta contra aqueles que resistem a esse tipo de mudança no código, embora defendam sua atualização, os argumentos são muitos e de pouco conteúdo. É um projeto sem técnica, de qualquer tipo, até legislativa. Escolhi estes três da variada gama de supostas razões para ser flexível na preservação florestal porque são bem interessantes: “é coisa do ambientalismo radical”, “se não mudar vai faltar comida” ou “querem que a floresta seja um santuário”.

Quando alguém usa “ambientalistas fundamentalistas”, “ambientalistas radicais”, “ongueiros”, como acusação ou ofensa – Aldo Rebelo, vários ruralistas “moderados” ou “envergonhados” fazem isso –, acho divertido. É um problema de modelo mental.

Um diz “ongueiro”, como se dissesse “lobista”. Outros olham os “ongueiros” como um exemplo de trabalho, a maior parte das vezes voluntário, parte do movimento social, com muitos serviços prestados a comunidades, ao ambiente, à cultura. Claro, tem as ONGs falsas, de fachada, e corruptas, que lavam dinheiro. Estas estão sempre associadas a políticos ou governos. Não se vê esses “ongueiros” fazendo manifestação, seu trabalho por definição não pode aparecer, porque não está relacionado ao objetivo social declarado da suposta ONG: são “coletores”, não são atores.

Um diz “ambientalista radical” como se dissesse “terrorista sanguinário”. Há os que descaradamente usam a expressão “terrorismo ambientalista”. Estes só existem no livro do ficcionista ultraconservador Michael Crichton e no vocabulário dos contrários a políticas ambientais. Já eu acho que ambientalista bom é ambientalista radical. Alguém tem que elevar o bastão o mais alto possível, para que as soluções de “equilíbrio” sejam razoavelmente equilibradas, contemplando de fato o lado ambientalista. Como o bastão está todo “do lado de lá”, é preciso certo radicalismo para puxá-lo um pouco para o lado ambiental.

Uma vez, numa reunião do Greenpeace, um jovem me perguntou se o Greenpeace deveria abandonar as “ações radicais”, caçando baleeiros, invadindo portos irregulares, enfim todo o variado repertório de ações muito visíveis que marcam, desde a origem, a criatividade e coragem da ONG, ou ela deveria passar a se dedicar à pesquisa e à negociação. Disse que sem os seus radicais, suas pesquisas não seriam consideradas e seu poder de negociação seria pequeno. A pesquisa é fundamental e há ONGs excelentes nesse campo, inclusive no Brasil. A negociação é parte do processo de defesa de políticas públicas e há “ongueiros” excelentes em negociação. Mas os radicais ajudam a colocar o tema mais ostensivamente na agenda e propicia a divulgação das pesquisas e abre oportunidades para a negociação.

Acredito nisso. Sem os radicais não dá para negociar. E há mais radicais do outro lado, do que do lado do ambientalismo. Digo isto numa boa, porque não sou ambientalista. Sou analista e editorialista. E, como observador, vejo o papel relevante que o “ambientalismo radical” presta, especialmente abrindo caminho para os “negociadores” e “moderadores”.

O argumento “vai faltar comida” se o ambientalismo prevalecer também é muito interessante. Me faz sempre lembrar a fazenda de soja, perto de Unaí, MG, que destruiu o Cerrado, aterrou veredas, ficou sem uma árvore, canalizou a fonte de água, plantou tudo de soja e… ficou sem água. Agora quer outras águas, que estão protegidas no Parque Grande Sertão Veredas. Se prevalecer a vontade dos que não querem a preservação é que vai faltar comida. A preservação de APPs é tão parte da segurança agrícola e alimentar, quanto da segurança hídrica e ambiental.

Se a ameaça da falta de comida revela desconhecimento das necessidades básicas da agricultura, a ideia do santuário ilustra bem o desconhecimento do valor da floresta em pé. Conto duas histórias que demonstram o valor econômico e social da floresta em pé. Uma foi relembrada recentemente por Rhett Butler, do site Mongabay. A outra, eu mesmo apurei, em conversa com a antropóloga física Karen Strier. Ambas têm a ver com matas e macacos. No caso da história brasileira, como não podia deixar de ser, tem a ver com macacos dissidentes.

A primeira se passa no meio da floresta de Borneo, na Malásia. Em busca da explicação para a resistência de um grupo de primatas ao HIV, após se darem conta de que eles em nada diferiam de outros primatas que não tinham essa resistência, os pesquisadores decidiram estudar a floresta. E na casca de uma espécie de árvore que cresce na turfa, encontraram um princípio bioativo, o canalolide A, que tem um potente efeito anti-HIV. Quando voltaram para coletar mais material para estudos, os cientistas descobriram que essa árvore havia sido eliminada pelo desmatamento. Tiveram que recorrer a alguns exemplares preservados no Jardim Botânico de Cingapura. Descobriu-se, depois, que existe uma espécie similar em florestas da Indonésia, que estão seguindo o mesmo destino da floresta de Borneo. Hoje o medicamento está entrando em fase de testes clínicos. Quanto vale um medicamento desses hoje, mais de vinte anos depois da descoberta do princípio em uma casca de árvore que seria extinta? Valor enorme, social, calculado em vidas e bem-estar de centenas de milhares, se não milhões de pessoas; e econômico, decorrente da produção industrial do medicamento. Vale muito mais social e economicamente que a monocultura de palma, que vem ocupando o lugar das florestas devastadas da região.

A segunda história se passa em uma fazenda, em Montes Claros, na região rural de Caratinga, MG. Seu proprietário, Feliciano Miguel Abdala, se apaixonou por um centenário jequitibá e uns macacos simpáticos que encontrou nos 900 hectares de mata da fazenda Montes Claros e que iam visitá-lo quando se sentava sob a sombra do jequitibá, para se ausentar das agruras do dia a dia. Decidiu preservar a mata. Nas outras quatro ou cinco fazendas que comprou, desmatou para produzir café. Um dia, chega por lá uma jovenzinha de Harvard, que só falava inglês, jeitosa, simpática, querendo estudar a paixão do fazendeiro, os macacos, para uma tese de doutorado. Eram muriquis, o maior primata das Américas. Karen Strier, hoje em Wisconsin, aprendeu “mineirês”. Seu Feliciano se encantou com ela e lhe deu uma casa de peão para montar sua base de pesquisa, além de livre trânsito pela mata. Este último um requisito fundamental, porque diz a lenda local que ele costumava tratar os invasores, geralmente caçadores, a bala.

Karen nunca mais parou de estudar os muriquis. Descobriu com eles que a primatologia baseada nos primatas do velho mundo havia criado um primata típico que não passava de generalização indevida, pura mitologia. Seu estudo sobre o “mito do primata típico”, lhe valeu a eleição para a Academia de Ciências dos Estados Unidos. O que os muriquis têm de diferente do mitológico primara típico? Não são carnívoros, são rigorosamente vegetarianos, só comem raízes, folhas e frutos, não têm macho dominante, praticamente não há diferença física entre macho e fêmea. A fêmea é que escolhe seus parceiros sexuais. Tem múltiplos parceiros quando está no cio, mas escolhe com que parceiro vai emprenhar.

Perguntei a Karen como essa fêmea conseguia fazer isso naturalmente. Ela me contou que ela e seus pesquisadores observaram que quando a fêmea começava a dar mostras de maior “assanhamento”, sumia numa parte da mata, provavelmente comia alguma fruta, folha ou raiz, e voltava namoradeira. Algo inibia sua fertilidade. Quando começava a ficar mais com um mesmo macho, sumia de novo, comia alguma coisa, voltava, copulava com o parceiro escolhido, “se fechava” para qualquer outro namoro daí em diante e emprenhava. Algo restaurava sua fertilidade. Não temos esses princípios bioativos identificados e dominados. Eles valem mais que os pastos que cercam esses 900 hectares por todos os lados. A Mata e os muriquis quase certamente não sobreviverão como “ilhas-fragmentos”. Como Karen disse a mim e a Míriam Leitão, em entrevista que fizemos com ela para O Globo e O Eco, que a SOS Mata Atlântica premiou, “muito triste estudar um animal que você sabe que vai ser extinto”.

Mais que triste, é um desperdício. A mata é uma mina inexplorada de princípios bioativos e o muriqui é o professor, que pode ensinar e guiar os pesquisadores pelos segredos escondidos em suas raízes, seus troncos, suas folhas e frutos.

* Para ouvir o comentário do autor na rádio CBN, clique aqui.

** Publicado originalmente no site Ecopolítica.

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