quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Prejuízo climático nos EUA tende a afetar a economia


por Sérgio Abranches, do Ecopolítica

Só no primeiro semestre, os desastres associados a eventos climáticos extremos no EUA – ondas de calor, secas e queimadas, tempestades, enchentes e tornados – geraram US$ 35 bilhões, segundo estimativas da NOAA – Administração Nacional Oceanográfica e Atmosférica. Essas perdas agravam os problemas da economia doméstica, reforçando os componentes recessivos da conjuntura e podem repercutir negativamente na economia global.

As perdas correspondem a safras perdidas, florestas destruídas, danos patrimoniais – residências, prédios comerciais e industriais danificados ou destruídos – e destruição de infra-estrutura – estradas, pontes, redes elétricas, de esgotamento, de gás e de água. Além disso, há impacto financeiro, principalmente, por meio das perdas seguradas, que afetam o balancete das seguradoras e resseguradoras e repercutem no mercado financeiro.

São diferentes das perdas que têm ocorrido nas bolsas do mundo, de bilhões de dólares no valor de empresas e papéis. Essas perdas são compensadas total ou parcialmente, quando as bolsas se recuperam. Aqui, se trata de perdas puramente financeiras, transacionais, perde-se mais valor de oportunidade, do que valor real.

As perdas climáticas são todas reais. Elas correspondem à destruição de valor real nas safras, patrimônio e infraestrutura perdidos. Há também perdas econômicas associadas à redução das exportações, à queda da oferta de bens, principalmente, alimentos por causa da quebra de safras, ao desemprego gerado pela interrupção de atividades e à elevação dos preços de alimentos, que pressiona o orçamento doméstico principalmente dos setores mais pobres. Além disso, a reconstrução, embora implique em investimentos que geram renda e emprego, representa demanda mobilização de recursos e gasto público inesperada e portanto não programada.

Essas estimativas dizem respeito aos eventos climáticos do primeiro semestre, até o mês passado. Este mês se intensifica no EUA a estação dos furacões, que já teve nove tempestades tropicais com força suficiente para receberem um nome próprio. O furacão Irene, a primeira a chegar a furacão, atingiu Porto Rico neste domingo, deixando 800 mil pessoas sem luz, causando enchentes e derrubando postes e árvores.

Irene tende a chegar à categoria 3 categoria 2 (ventos com velocidade entre 154-177 km) em trajetória para o norte-nordeste, rumo à costa do EUA, podendo eventualmente chegar à categoria 3. A NOAA estima que siga uma rota paralela à costa da Flórida, alcançando a terra em uma das Carolinas, Norte ou Sul, no sábado. Se essa trajetória prevista se confirmar, Irene pode produzir danos e perdas em Porto Rico, na República Dominicana, no combalido Haiti, em parte das Bahamas e na costa do EUA da Flórida à Carolina do Norte, afetando esses dois estados e a faixa costeira da Georgia e da Carolina do Sul. Mesmo antes de chegar à terra, Irene pode ter efeitos fortes. Os ventos com força de furacão se estendem no momento por 80 kms e os ventos com força de tempestade tropical, por 330 kms. O Katrina, que chegou à categoria 5, havia retrocedido para categoria 3, quanto atingiu Nova Orleans.

Se Irene alcançar mesmo a terra no EUA, será o primeiro caso desde que o Ike causou muita destruição na costa do Texas, em 2008.

Isso em uma economia que vinha mostrando dificuldades de se recuperar dos efeitos recessivos da crise financeira de 2008 e volta a ser abalada pela crise financeira e fiscal de agora. A crise atual é uma continuação do processo iniciado pelo colapso das hipotecas. Essas perdas climáticas repercutem na economia inteira e na economia global e agravam os elementos recessivos que já estão ativos em função da conjuntura fiscal e financeira negativa.

* Para ouvir o comentário do autor na rádio CBN clique aqui.

** Publicado originalmente no site Ecopolítica.

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