quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Ecossistema Manguezal - melhor definição

O debate sobre o Novo Código Florestal provocou uma série de discussões de ordem acadêmica, resgatando definições consolidadas e que infelizmente foram deturpadas em virtude dos interesses políticos que circundam as discussões.
Caos e Clorofila teve acesso ao documento público que deveria nortear as discussões, apresentado em 2001 ao Ministério Público Federal, Procuradoria Geral da República, 4a Câmara de Coordenação e Revisão - Meio Ambiente e Patrimônio Cultural.
Copiamos abaixo a definição sobre Manguezal e Apicum, com base nos conceitos mais bem aceitos no mundo científico. As referências poderão ser acessadas no documento: "Estudo Técnico de Caracterização Ecossistema Manguezal".

A fonte pode ser acessada em: http://www.anp.gov.br/brnd/round5/round5/guias/perfuracao/5round/refere/manguezal_marisma_apicum.pdf

“Manguezal”, por definição, é um ecossistema tropical, colonizando depósitos sedimentares sujeitos a influência das marés, formados por vasas lamosas, argilosas ou arenosas, ocupando a faixa do entremarés até o limite superior das preamares equinociais. Manguezais, com distribuição descontínua ao longo do litoral brasileiro, podem apresentar zonação de feições distintas, em função do perfil da linha de costa e das freqüência e amplitude das marés, condicionando diferentes períodos de inundação. Nesse ambiente halófilo, ao longo da zona entremarés, associa-se cobertura vegetal típica, com desenvolvimento de flora especializada, caracterizada por espécies arbóreas que lhe conferem fisionomia peculiar (feição “mangue”).

Foto 1 - Bosque de mangue no estuário de Cananéia. Foto de Clemente Coelho Junior

A feição “mangue”, do ecossistema manguezal, exposta a lavagens diárias pelas marés, exporta, principalmente, material particulado (folhas, galhos, propágulos) a ser decomposto nos corpos d’água adjacentes (rios, estuários, águas costeiras). A decomposição da matéria orgânica também pode ocorrer in situ, quando o ecossistema exporta material dissolvido.

Nas porções mais internas do manguezal, caracterizadas por “bacias” ou depressões, a serapilheira acaba sendo decomposta no próprio local, exportando matéria orgânica dissolvida, de grande valor ecológico para uma área que extrapola a do próprio ecossistema.

Em decorrência da dinâmica costeira (morfodinâmica), podem ocorrer intrusões e deposição de areias nas feições mais internas do ecossistema (eventos progradantes), elevando a cota do terreno e fazendo com que a mesma passe a ser inundada somente por ocasião de preamares de sizígia e equinociais (feição “apicum”).
Afinal, é fato sabido e reconhecido que o manguezal é um ecossistema aberto, no que diz respeito a energia e matéria (Lugo & Snedaker, 1974). O aporte de matéria para o ecossistema, sua transformação e conseqüente exportação, são controlados por fatores físicos (marés, drenagem terrestre, chuvas, lençol freático) e biológicos (produção de serapilheira, lixiviação, decomposição, atividades da fauna, cadeia alimentar).

Os nutrientes carreados das zonas adjacentes pelos cursos d’água, marés, chuvas, drenagens terrestres, lençol freático, são disponibilizados ao ecossistema onde podem ser armazenados no substrato, ou transformados em matéria orgânica por processos físicos, químicos e fisiológicos (fotossíntese). A matéria orgânica sintetizada pelos produtores primários – vegetais (plantas superiores, macro e micro algas), pode ser exportada aos corpos d’água adjacentes, incluindo estuários e zonas costeiras (na forma de matéria orgânica particulada, dissolvida ou ainda como macrodetritos), pelos mesmos agentes responsáveis pelo aporte de nutrientes.

Manguezais são, geralmente, sistemas jovens em função da dinâmica das áreas costeiras onde se localizam, submetidas a constantes modificações desses terrenos do entremarés, resultando numa seqüência de avanços e recuos da cobertura vegetal (Schaeffer-Novelli, 1987).

Cabe ressaltar, também, que além desses processos de larga escala temporal, a maré como um dos fatores físicos determinantes da composição do manguezal, responsável pela extensão da zona costeira a ser ocupada pelo ecossistema (função da amplitude e da freqüência de inundação), condiciona as feições “mangue” e “apicum”.
Ramos (1992), descreve os apicuns como: “O salgado ou apicum é parte integrante do manguezal, da mesma forma que a área de lavado. Enquanto esta última se situa à frente dos bosques de mangue, lavada ao menos duas vezes por dia pela maré, o salgado se situa atrás dos mesmos, na área de transição para a terra firme, sendo atingido nas marés equinociais. Devido ao terreno ser extremamente salgado, só poucos exemplares de mangue preto (Avicennia spp.) e algumas outras plantas adaptadas a solos salinos aí ocorrem (Salicornia sp.), dando a falsa impressão de que aquela área não faz parte do manguezal e que nela não há vida”.

As algas (cianofíceas e diatomáceas) crescem nesse terreno sendo comum avistar caranguejos (Sesarma sp., Chasmagnatus sp., Uca spp.) no salgado (planícies hipersalinas, ou feição “apicum”), alimentando-se desses microorganismos após inundação pelas preamares. Esses caranguejos, por sua vez, são importantes elos da cadeia alimentar do ecossistema, visto que servem de alimentos para inúmeras espécies de peixes, aves e mamíferos.

Essas áreas, banhadas somente pelas preamares de maiores amplitudes, e sendo em grande parte desprovidas de vegetação vascular (vegetais superiores), são denominadas de planícies hipersalinas ou apicuns, segundo a língua indígena (Dias-Brito et al., 1982). Essa situação, sem espécies arbóreas, empresta aparência de planície (nem sempre caracterizada por hipersalinidade), recebendo a denominação popular de apicum.

Santos et al. (1996) ressaltam que o uso comum do termo apicum, ao contrário da acepção dada pela academia, nem sempre está associado a planícies hipersalinas. Segundo aqueles autores (Santos et al., op. cit.), os pescadores do Maranhão utilizam o termo apicum para qualquer trecho árido e/ou sem cobertura vegetal entre o manguezal e o ambiente terrestre. Da mesma forma, os pescadores da região de Cananéia (Estado de São Paulo), embora utilizem o termo apicum, não o associam à hipersalinidade do sedimento, mas à ocorrência de cobertura vegetal de porte herbáceo.

Segundo Dias-Brito et al. (1982), a Planície de Maré Superior (feição “apicum”) poderia representar antigos domínios de manguezais, que devido a eventos progradantes deixaram de receber regularmente as águas das marés normais. Hoje, essas feições ocupam posição topográfica mais alta, sendo bastante influenciadas pelas condições continentais (drenagem, por exemplo). Em várias dessas áreas, a salinidade da água intersticial é elevada e, devido a exposição prolongada durante períodos secos as temperaturas do sedimento podem atingir os 50oC, resultando na ocorrência de gretas de contração na superfície do substrato.

Nessas “clareiras” do manguezal (feição “apicum”), podem ser identificadas associações vegetais (plantas de porte herbáceo, como Sesuvium portulacastrum, Eleocharis mutata, Sporobolus virginicus e Salicornia virginica) e de outros microorganismos (como as cianobactérias), adaptados a conviver com as condições abióticas (físico-químicas) dominantes.

Bigarella (1947) faz referência aos apicuns da região Sudeste, como zona de transição, resultado da deposição de areias finas pelas enchentes da preamar, parte da sucessão natural do manguezal para outras comunidades vegetais. O substrato da feição “apicum” torna-se cada vez mais arenoso dando acesso a espécies como Hibiscus pernambucensis, que conseguem, sob essas condições, competir com as espécies de mangue.

Lebigre (1994), estudando as zonas internas das áreas úmidas dos litorais norte e nordeste do Brasil, cita ocorrência de apicuns nos estados de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí e Maranhão, sendo que a maior extensão destes encontra-se no trecho entre o Delta do Parnaíba e o litoral ocidental do Estado do Rio Grande do Norte, região costeira com os maiores valores de déficit hídrico (valores de evapotranspiração maiores que os de precipitação pluvial).

Além desses registros de ocorrência de manguezais com apicuns, ao longo do litoral brasileiro, encontram-se os trabalhos de Bigarella (1947) no Paraná; Nascimento et al. (1993) para Sergipe; Santos et al. (1996) no Maranhão; Reitermejer et al. (1998) na Bahia e, Dias-Brito et al. (1982); Araújo (1985); Soares et al. (1997); Pellegrini (2000); Oliveira (2001); e Portugal (2002) para o Rio de Janeiro.

Fosberg (1961, apud Paling, 1986) observou que a ocorrência de zonas sem cobertura vegetal na faixa entremarés adjacente a manguezais de costas áridas, na Austrália, Equador, El Salvador e Honduras, encontrava-se associada à grande amplitude das marés e ao clima seco, ou estacionalmente seco. Essas zonas seriam o resultado da interação entre períodos de inundação e secas extremas, causando acúmulo de sal que pode exceder a tolerância das plantas típicas de mangue e das espécies halófitas arbustivas.

Um comentário:

  1. Quem precisar das referências envie email que tetantaremos responder o mais breve possível!

    ResponderExcluir