quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Filipinas petróleo e gás acarretam miséria e destruição em região de manguezais

Há mais de três anos, um enorme navio chegou sem prévio aviso ao estreito de Tañon, uma das regiões de pesca mais ricas nas Filipinas Centrais e um centro mundial para a biodiversidade marinha. Durante dois meses, o M/S Veritas Searcher - propriedade da Japan Petroleum Exploration Co.Ltd. (Japex) - permaneceu no estreito para determinar a existência de depósitos de petróleo e gás natural usando tecnologia altamente sofisticada para detectar e determinar a extensão dos depósitos.

Com desconhecimento da população, a Japex já estava realizando uma pesquisa geofísica extensiva, usando um navio com armas de ar comprimido e hidrofones conectados a um cabo que draga as águas subterrâneas para produzir reflexos sísmicos a fim de detectar as características a grande escala da geologia subaquática. O ruído sônico de um conjunto de armas de ar comprimido é 255 decibeles (dB), muito além do umbral humano de 80 dB e de outros animais em que é mais baixo. A explosão sísmica pode causar danos aos órgãos de reprodução, estourar as bexigas natatórias e causar estresse fisiológico nos organismos marinhos. Também pode provocar alterações de comportamento e reduzir ou eliminar habitats disponíveis, alterar a distribuição de peixes por dezenas de quilômetros e causar dano nos ovos e larvas planctônicas. A partir de então, a vida de milhares de pescadores já não foi a mesma.

Os manguezais que beiram o estreito Tañon indicam um rico ecossistema que providencia alimentos que agora está ameaçado pelas atividades de prospecção de petróleo e gás. O peixe é um dos principais componentes da dieta, que dá conta de mais de 50% da proteína animal consumida no país. As atividades de prospecção de petróleo e gás da Japex no estreito de Tañon e da NorAsia Energy Ltd. no estreito de Cebu-Bohol afetam negativamente um número estimado de 200.000 pescadores nas províncias de Cebu, Bohol, Negros Oriental e Negros Ocidental na região central de Visayas. Diversas missões de verificação internacional (FFM) conduzidas por diferentes grupos desde 2005 documentaram a destruição da aparelhagem de pesca dos pescadores, a desaparição de espécies locais de peixes bem como a diminuição dos peixes capturados em decorrência das operações da Japex e NorAsia: 3 a 5 quilos de 15 a 20 quilos informados por pescadores que usam botes motorizados; 0 a 2 quilos de 4 a 6 quilos por pescadores que usam botes sem motor.

A organização de pescadores Pamalakaya receia que as atividades de prospecção de petróleo e gás tenham impactos de longa duração não apenas nos meios de vida de subsistência dos pescadores na região, como também na segurança alimentar do país inteiro. Isso levaria a uma “crise da pescaria” que cortaria a produção anual doméstica em média 600.000 toneladas métricas de peixe e outros produtos marinhos durante os próximos sete a dez anos, afirma o grupo. Até o consumo de peixe de cada filipino poderia ser reduzido em mais de 20 por cento.

Enquanto isso, a empresa australiana NorAsia está preparando a realização de perfurações no estreito de Cebu-Bohol para o início do próximo ano. Se a prospecção de petróleo e gás teve impactos tão devastadores, é possível imaginar os que terá a exploração. “Estamos amedrontados porque quando as perfurações começarem, não restará nada para nos alimentarmos. Até agora tudo o que podemos pagar é só arroz, na maioria das vezes. Alguns dos meus colegas vendedores de peixe migraram para as cidades para trabalhar como ajudantes domésticos porque aqui já não restam meios de vida”, disse Lucena Sarahena, uma residente de 41 anos de Brgy. Langtad, Argao. “Antes, nossa renda era apenas suficiente para transporte, alimentação e eletricidade. Agora é escassamente suficiente até para pôr alimentos na mesa,” disse Merla Labid, de 53 anos, cujo neto adoeceu de bronco-pneumonia e abandonou a sexta série.

A NorAsia também prometeu aos residentes de Argao que os preços da gasolina, bem como os preços dos produtos básicos iriam baixar se a prospecção de petróleo e gás desse certo. Mas os pescadores de Brgy. Langtad não estão convencidos. “O que vamos fazer com os preços baixos se não tivermos dinheiro porque não haverá peixe?”, disse Felisa Albandonido, de 60 anos.

Nesse ínterim, a problemática resultou na formação e o fortalecimento de grupos de pescadores locais em toda a região. Os pescadores lideram atualmente atividades organizadas, foros públicos, piquetes e ações coletivas.

“Nós vimos na Ásia e em muitas partes do mundo que, historicamente, o petróleo não se traduz em riqueza para as pessoas,” disse Gilbert Sape da Coalizão dos Povos pela Soberania Alimentar (PFSC). Ao contrário, a experiência dos pescadores nas Filipinas Centrais tem provado mais uma vez que o potencial descobrimento de petróleo tem conduzido a uma pobreza ainda maior e à destruição da riqueza natural do mundo.

Extraído e adaptado de: “Hunger and plunder in the seas: Oil and gas exploration causes destruction of marine environment and food insecurity in Central Philippines,” Ilang-Ilang D. Quijano, PAN AP e PCFS, novembro de 2009

http://www.foodsov.org/resources/hungerplunder.pdf

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