sábado, 14 de janeiro de 2012

Noronha: a ilha utopia

Publicado em 25.04.2010, Jornal do Commercio
Por Inácio Strieder

Fernán de Loronha (Fernando de Noronha!) foi o cristão-novo que financiou, em 1503, a expedição, comandada por Gonçalo Coelho, da qual fazia parte o florentino Amerigo Vespucci. Fernando de Noronha, por isto, foi designado pelo rei de Portugal o donatário das terras (ilhas) avistadas, a 10 de agosto de 1503, pela expedição de Gonçalo Coelho. Loronha nunca esteve em Noronha. No relatório de Américo Vespúcio estas ilhas, hoje Arquipélago de Noronha, foram denominadas de Quaresma. Mas a nau de Gonçalo Coelho se chocou contra recifes e naufragou. Gonçalo pediu a Américo Vespúcio que ancorasse em algum porto. Mas, depois de oito dias, Vespúcio descobriu que as outras naus da expedição se haviam desgarrado (ou o haviam abandonado), e resolveu prosseguir viagem, chegando ao Rio de Janeiro (?) onde, talvez em Cabo Frio, fundou uma feitoria. A partir dos relatórios de viagens de Américo Vespúcio, espalhou-se amplamente pela Europa uma "carta", escrita em latim, atribuída ao próprio Vespúcio. Este texto foi lido na Inglaterra pelo humanista Thomas Morus que, em 1516, publicou o livro A ilha utopia. Segundo estudiosos desta obra, não há dúvida que Morus, inspirado nas descrições de Vespúcio das Ilhas Quaresma (Fernando de Noronha), ali imaginou a sua sociedade ideal utópica, e denominou este lugar de Ilha Utopia. Alguns relatos já atribuem a Vespúcio a exclamação: "O paraíso é aqui!". 

Mas não me quero deter aqui sobre o "paraíso" natural das ilhas oceânicas, vulcânicas, de Fernando de Noronha, hoje distrito administrativo do Estado de Pernambuco, e no tempo de Vespúcio sem presença humana. Será que hoje Noronha, com seus poucos milhares de habitantes e turistas, não poderia servir como campo experimental para ali funcionar uma sociedade humana e administrativamente ideal, fazendo jus, sob certos aspectos, à sociedade ideal de Thomas Morus, em sua Ilha Utopia? Isto, talvez, pudesse servir de experimento modelo para toda a sociedade brasileira.

Em todo caso, Fernando de Noronha, com cerca de 3 mil habitantes, mais cerca de mil turistas circulando todos os dias por lá, poderia ser um lugar (conforme expectativas de Morus em sua proposta de sociedade ideal) sem necessitados, sem exploradores nem explorados, onde todos seriam iguais em dignidade, os habitantes vivendo dignamente com suas seis horas diárias de trabalho, com boas escolas, bons hospitais e tratamento de saúde impecável, um povo culto, apreciando as letras, as artes e a música, um povo orgulhoso de sua natureza e de sua história, artesãos qualificados, agricultura orgânica e abundante, respeitando a natureza, um poder de serviço e não de dominação, segurança plena, sem corrupção nem propinas. Um povo amável, bem-informado, que recebesse bem os visitantes da ilha, sem ganância de explorá-los, um povo sem alienação e sem drogas. Assim, Fernando de Noronha retrataria um pouco do que seria uma Ilha Utopia, um lugar paradisíaco, uma Bora Bora brasileira. 

Será que os dirigentes de Fernando de Noronha, a começar pelo governador de Pernambuco, não poderiam alimentar este imaginário em relação a este pedaço de território nacional, por assim dizer, antessala de visitas ao Brasil. 

Claro, a história de Fernando de Noronha nem sempre foi palco de momentos paradisíacos. Nos pouco mais de 500 anos de sua história já foi invadida por franceses, holandeses, ingleses, e abrigou bases de guerra e prisões com torturas terríveis de presos comuns e políticos. Mas, hoje, sua realidade, tanto para habitantes como para turistas, não tem motivo de não criar vida e lembranças paradisíacas. De fato, ainda falta uma opção política para que isto se realize. Mas, quem sabe, não se ilumine a mente de seus dirigentes para que cuidem de organizar e administrar utopicamente Fernando de Noronha, e os que lá aportam possam exclamar: "O paraíso é aqui". Assim se deixaria de ouvir de amantes da natureza que lá estiveram, que a natureza é paradisíaca, mas o custo e o sistema turístico humano lhes deixou um sentimento de amargura na boca, com a sensação de que foram tratados como trouxas.

» Inácio Strieder é professor de filosofia

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Mangue na ilha

REDAÇÃO | Edição 191 - Janeiro de 2012



O bosque da baía de Sueste, em Fernando de Noronha, é o único manguezal em ilha oceânica no Atlântico Sul, e há indícios de que se instalou por lá há cerca de 2 mil anos. Apesar de monitorado há três anos por um projeto que reúne três universidades pernambucanas, a Universidade de Pernambuco (UPE), a Federal (UFPE) e a Federal Rural (UFRPE), um mistério permanece: como a árvore mangue-branco (Laguncularia racemosa), que existe na África e no Brasil, chegou até lá? Provavelmente de carona na corrente Sul Equatorial, que liga os dois continentes.

Clemente Coelho Junior
Universidade de Pernambuco


Se você tiver uma imagem relacionada a pesquisa, envie para imagempesquisa@fapesp.br, com resolução de 300 dpi (15 cm de largura) ou com no mínimo 5 MB.
 

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

A importância das florestas originais

A importância das florestas originais
Recuperação de área desmatada não repõe variedade de plantas e animais

Recuperar a variedade de plantas e animais de uma floresta é muito mais difícil do que se imaginava. Isso se, de fato, for realmente possível. Há décadas pesquisadores de vários países tentam descobrir o que seria mais eficiente para manter a biodiversidade: focar as iniciativas na preservação das florestas primárias, com o mínimo possível de alterações pelas atividades humanas, ou recuperar áreas que já sofreram alguma modificação pelo homem, entre elas as florestas secundárias. Para quem não é especialista, a resposta mais óbvia seria: nada substitui as florestas primárias em termos de biodiversidade. Mas, pesquisadores tinham dúvidas. Estudos sugeriam que as florestas secundárias pudessem conter uma variedade de espécies tão relevante quanto às originais. Porém, uma pesquisa publicada ontem (14/09) no site da revista Nature reforça a ideia de que as áreas de floresta primária são mais ricas em biodiversidade.

A pesquisa analisou 2.200 comparações entre florestas primárias e secundárias feitas anteriormente em 28 países da América, Ásia, África e Oceania. Essa avaliação, possivelmente a mais ampla sobre o assunto, concluiu que as florestas primárias tropicais são praticamente insuperáveis em biodiversidade. “Esse padrão depende muito do histórico de perturbação e da paisagem onde as manchas de mata primária estão inseridas”, explica Carlos Peres, brasileiro radicado na Universidade de East Anglia, no Reino Unido, e um dos autores do estudo da Nature.

Com base nesse raciocínio, a primeira escolha, em um mundo em que os recursos financeiros são limitados, seria manter as áreas de florestas primárias. Segundo Peres, investir na regeneração de mata secundária seria um bônus. “Reflorestar garantiria a sobrevivência de muitas espécies e a manutenção de serviços de ecossistemas como foi feito com a Floresta da Tijuca, área de mata atlântica, no Rio de Janeiro”, conta o norte-americano Thomas Lovejoy, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), no Brasil, e do Centro H. John Heinz III para Ciência, Economia e Meio Ambiente, nos Estados Unidos, outro autor do estudo feito em parceria com pesquisadores de outros países, entre eles o indiano Navjot Sodhi, que morreu de câncer antes da pesquisa ser publicada.

Regiões degradadas podem se recuperar sozinhas, mas reflorestar usando espécies nativas ou de outros ambientes é um trabalho lento, que pode durar séculos. “Áreas de mata atlântica secundárias com cerca de 400 anos no Paraná ainda não têm o perfil de espécies de plantas de regiões primárias”, alerta o pesquisador. A região do Petén, no norte da Guatemala, sofre do mesmo problema. “Quando os espanhóis chegaram, o local era tomado por milharais do Império Maia. Hoje, mais de 500 anos depois, uma mata vigorosa tomou o lugar, mas em termos de biodiversidade não chega nem perto do que poderia ser uma floresta primária da América Central”, afirma.

As atividades humanas interferem de modo diferente em regiões distintas. De acordo com o trabalho, as florestas tropicais da Ásia são mais sensíveis às transformações impostas pelo homem do as matas das Américas. Os diferentes grupos de animais, igualmente, respondem de forma distinta: os mamíferos, de modo geral, são mais resistentes às mudanças, ao passo que as aves são sensíveis.

Foram analisados 12 tipos de interferências humanas que afetam de modo diferente os ambientes. A prática mais agressiva é o uso do fogo, muitas vezes para abrir espaço para a agricultura, enquanto a que oferece menos risco para a biodiversidade é o corte seletivo. A retirada de apenas 3% das árvores de uma floresta já afeta a variedade de espécies do local. A monocultura de árvores de crescimento rápido, como o eucalipto, outra perturbação causada pelo ser humano ao ambiente, também é um problema para a biodiversidade, principalmente em locais como a Ásia e o Brasil.

O problema é mundial. O estudo da Nature reflete uma escassez de informações sobre a maior parte da biodiversidade tropical. “Praticamente não há pesquisas sobre florestas de vários países africanos e asiáticos”, diz Peres. De acordo com o estudo, também faltam trabalhos sobre grupos de plantas, invertebrados e vertebrados em mosaicos de floresta primária e áreas adjacentes de floresta degradada.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Parques no Papel

Caros amigos do Caos e Clorofila,

Inicio o ano indicando uma série de matérias publicadas sobre as UCs de Pernambuco, denominada: “Parques de Papel”, escrita (e muito bem escrita, diga-se de passagem) pela brilhante jornalista Verônica Falcão. A investigação sobre a situação das unidades de conservação no estado é espetacular, e alarmante.

No link abaixo, encontrarão as cinco matérias da série, de 01 a 04 de janeiro, e tantas outras publicadas no blog “Ciência e Meio Ambiente” (clorofilado por nós, veja link ao lado).

Bem é isso... As informações são preocupantes e não diferem muito da realidade das UCs federais, mas como não poderia deixar de fazer (cutucar), pergunto: “Pernambuco tem um passivo ambiental enorme, que tal o estado abraçar essa causa?” Salve a nossa biodiversidade.

Saudações. Segue o link:

http://jc3.uol.com.br/blogs/blogcma/