terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Manguezais urbanos do Recife na visão da ciência romântica

Por Clemente Coelho Junior
Recife, 15 de janeiro de 2013

Margem do Capibaribe: garças e "garças de plástico". Clique na foto e encontre a garça verdadeira. Foto de Clemente Coelho Junior.
 

A história do Recife passa pela ocupação das margens dos rios e riachos que cortam a planície costeira. Manguezais e restingas deram lugar para o tecido urbano, e os corpos d’água tornaram-se receptores dos efluentes da cidade.

Da vegetação original sobraram alguns remanescentes dos mangues, outrora florestas que alimentavam a pesca local e atenuavam o acúmulo de areia, protegendo a navegação no leito do rio. Mas o tempo passou, e as características dos corpos d’água estuarinos (de água escura, às vezes esverdeada nas marés altas), deram lugar para águas quase negras, pobres, podres, mortas em vida, fétidas, que recebem dejetos lançados por uma cidade pouco saneada - Recife. Menosprezaram a beleza cênica das margens dos rios “metropolitorâneos”. Paisagem verde dos mangues, da lâmina d’água hoje iluminada, das garças de plástico enroscadas nos galhos.

A cidade cresceu, verticalizou-se, e os arranha-céus do Recife voltaram-se para as margens do Capibaribe. Querem a vista linda, valorizam o rio e os manguezais, como se fossem únicos. Da lama produtiva, berçário da vida, para a arborização natural, quase intocada do Parque dos Manguezais, antigo Rádio Pina. Paisagem de verde contínuo, que se derrama sobre o tecido urbano caótico, e se alimenta por pequenos canais infartados. Beleza que esconde o plástico no emaranhado de raízes e troncos, que absorve o esgoto, mas que resiste. É resiliente e nostálgico, herança do Recife dos séculos passados.

E assim se vai o tempo, estampado pela Ciência de Josué de Castro, que valorizou a produtividade do manguezal. Mas vieram outros cientistas, modernos, que amplificaram sua importância como prestadores de serviços para a cidade, ao custo da transformação da matéria orgânica em excesso (fezes humanas, esgoto), na produção de folhas, galhos, troncos, raízes e frutos. Mais verdes do que todas, que este filtro biológico presente no estuário do Capibaribe e seus afluentes insiste em se destacar. Árvores metidas a carnavalescas. Folionas que deixam pequenos os bonecos de Olinda. Melhor com os mangues. Pior sem eles.

Falta ainda falar de um serviço ambiental, fotossintético, dentre tantos que ficarão de fora dessa resenha: a importância dos manguezais na manutenção natural da drenagem urbana, que também atenua o efeito erosivo das marés insistentes, que lutam em ocupar o que era seu, e que hoje é concreto.

E a vida abunda. Nos bancos de lama e baixios, aves pousam para alimentação em sua rota migratória setentrional, e caranguejos insistem em driblar o lixo para construir suas tocas e resgatar homens-caranguejos. Presentes nas pequenas vilas desordenadas, “palafíticas”, insalubres. Segurança alimentar ou risco a saúde? A ciência busca a resposta. 


Clemente Coelho Junior é Biólogo, mestre e doutor em Oceanografia Biológica pelo Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo. Professor Adjunto do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade de Pernambuco. Coordenou o grupo de Gestão Ambiental do Projeto Recife-Olinda, entre 2005-2008. Foi professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco entre 2004-2005. Ambientalista, sócio-fundador do Instituto BiomaBrasil. Membro titular da Comissão Técnica sobre Biodiversidade e Qualidade Ambiental do Conselho Estadual do Meio Ambiente. Autor dos livros “Manguezais” e “Guia Didático: Maravilhosos Manguezais do Brasil”. Cidadão Recifense, pelo tropeço da folia.

3 comentários:

  1. Muito bom o texto. Essa semana me peguei pensando justamente sobre isso, do verde da copa dos manguezais nos meandros do Capibaribe.

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    1. Obrigado! Sempre é bom receber elogios. Certamente você é morador(a) do nosso Recife. Saudações

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  2. O ativo mais importante nos discursos oficiais é a biodiversidade, mas nunca é prioridade nas políticas de desenvolvimento.
    O desenvolvimentismo nacional não leva em conta o fator cultural e nem as formas de vida.
    Aqui se combinam a mais avançada legislação ambiental do mundo com um crescimento selvagem. Embora as leis ambientais, melhorem a qualidade de vida dos cidadãos, reduzem a produtividade e os ganhos em escala e entre o lucro e a vida, os empresários selvagens fizeram sua escolha. Aplica se de forma exemplar a premissa neoliberal de que as liberdades econômicas estão acima das liberdades políticas e sociais. A conta é salgada, para os biomas brasileiros.
    * Adaptação de texto de Bruno Rocha

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