segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Maravilhosos manguezais e peixes-boi: unidos pela vida


Por Clemente Coelho Junior

Algum dia desses...


O Manguezal é um ecossistema costeiro da zona do entremarés, que pode apresentar feições distintas: lavado, bosque de mangue e apicum. O “lavado” é a feição exposta à maior frequência de inundação, apresentando substrato lodoso sem vegetação vascular. O “mangue” apresenta cobertura vegetal típica, constituída por espécies arbóreas que lhe conferem fisionomia peculiar. A feição “apicum” limita-se à feição mangue, e é atingida nas preamares de sizígia, equinociais ou em virtude de eventos meteorológicos, podendo apresentar-se nos períodos escassos de chuva com acúmulo de sal no sedimento. Esta última feição é muito comum no nordeste brasileiro.

Manguezal do Rio Tatuamunha (Porto de Pedras, AL)
Foto Clemente Coelho Junior
Os manguezais dominam os habitats costeiros de regiões tropicais e subtropicais, e caracterizam boa parte dos estuários, do Amapá a Santa Catarina, e são importantes transformadores de matéria orgânica em biomassa animal e vegetal, impulsionando uma complexa e importante cadeia alimentar, na qual se destacam diversas espécies de importância econômica e algumas ameaçadas de extinção.
Dentre tais espécies, o peixe-boi marinho possui uma íntima ligação com os manguezais nordestinos. As condições do meio são propícias para a espécie, como área de abrigo e proteção, alimentação e reprodução. Sabe-se que as árvores de mangue não representem a maior parte da dieta da espécie, entretanto, as folhas e as tenras raízes aéreas que se projetam dos troncos sobre os estuários complementam a sua alimentação e servem como adstringentes, devido a grande concentração de tanino. Os bosques auxiliam ainda na captação de água das chuvas, que escorrem pelas folhas, fornecendo um verdadeiro bebedouro natural. 

Peixe-Boi bebendo água da chuva.
Foto Clemente Coelho Junior
Mas a relação não para por aí. Os manguezais protegem a linha de costa atenuando os efeitos erosivos das marés e ainda aprisionam sedimento de forma eficaz no seu emaranhado de raízes e troncos, evitando o assoreamento dos rios. As margens dos estuários e os diversos canais mareais internos aos bosques são utilizados pelos peixes-bois e suas crias para abrigo e descanso.

Peixe-Boi dentro do recinto do Centro de
Mamíferos Aquáticos (ICMBio), em Porto de Pedras (AL)
Foto de Clemente Coelho Junior
Graças ao ecossistema manguezal há água limpa e tranquila para a espécie. Porém, este maravilhoso habitat é um dos mais vulneráveis aos efeitos deletérios do crescimento econômico e da expansão desordenada dos núcleos urbanos, impondo severas alterações na qualidade das águas estuarinas, baías, lagunas e lagoas costeiras. Recentemente, com a aprovação do Novo Código Florestal, em substituição à Lei Federal 4771/65, projeta-se cenários preocupantes, uma vez que a nova lei garante o uso de 35% dos manguezais nordestinos para a carcinicultura (criação de camarão marinho). Em suma, vem aí mais ameaça ao habitat dos maravilhosos peixes-bois marinhos.

Leitura recomendada:
1) Coelho-Jr, C.; Almeida, R. & Corets, E. (org). Guia Didático Os Maravilhosos Manguezais do Brasil. 2. ed. Vitória: Papagaya Editora, 2008. v. 1. 266p.
2) Schaeffer-Novelli, Y.; Rovai, A. S.; Coelho-Jr, C.; Menghini, R. P.; Almeida, R. Alguns impactos do PL 30/2011 sobre os Manguezais brasileiros. In: Código Florestal e a Ciência: O que nossos legisladores ainda precisam saber. Sumários executivos de estudos científicos sobre impactos do projeto de código florestal. Comitê Brasil em Defesa das Florestas e do Desenvolvimento Sustentável. Brasília, DF. 2012. p. 18-27
3) Coelho-Jr, C.; Schaeffer-Novelli, C.; Tognella, M. Manguezais. 1. ed. São Paulo: Editora Ática, 2001. v. 1. 48p .

Originalmente publicado em: Revista a Bordo



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